Acompanhe aqui os meus textos inéditos


Paulo Sérgio Rosseto

Poeta


LIVROS PUBLICADOS:

O SOL DA DOR DA TERRA - 1981

MEMORINHA - POEMAS INFANTIS - 1982

ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO - 1984

AMOROSIDADE - 1985

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018

DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018

VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019

POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019

LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019

FAZENDA HAICAIS - 2020

ABELHINHA PEQUETELLA - 2020

POETA ENTRE COLUNAS - 2020

POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol 2 - 2020

NAS ASAS DAS HORAS - 2020















PEDREIROS POETAS


Não, não sou poeta pelo simples ilógico querer
Tanto que por vezes incomoda-me a poesia
Poderia estar gozando de outras formas de prazer
E justamente estar lendo o que alguém outro escreveria


Mas quando isso acontece eu me despeço da leitura

E vejo-me no involuntário clamor de fazer poema
Some do meu derredor todo o concreto da existência
Entrego à minha mão o verbo que a mente ordena


Então vou construindo palavra a palavra os seus anexos

Como um oleiro funda alicerces de argamassa e argila
Depois edifica casas absorto no suor do rico ofício


Quando se vê encontram-se ambas lapidadas, concluídas

Mais uma e outra e outra obra predicadas do Arquiteto
Feitas de magia, sonhos, barro, sintaxes e raros versos

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UM MESMO SONO


As minhas mãos tem luvas

Assim posso tocar despreocupado

Em tuas feridas

Os meus ouvidos estão vedados

Então não ouço os teus apelos

Teus gemidos de dor não apiedam-me


Entre um curativo e outro

Tomo sorvete

E você faz qualquer prece


De cansaço o dia escurece

E nós dois dormimos um mesmo sono

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OS MEUS PROBLEMAS

Sentado aqui no macio conforto da sala
Sou vitrine para as nuvens calmas
Que passam e me olham de soslaio

Também para um coqueiro carregado
Que aproveita o vento e balança altivo seus cachos
E ri da minha sede pois sabe que lá não subo

Por vezes voa algum apressado pássaro
Levando insetos no bico ou no papo
Ignorando que existo como ele do vagar

Permaneço abstrato tomado na preguiça
Ciscando palavras no terreno do alfabeto
Enquanto as acho para mais alguns poemas

Nada mais passa pela minha janela fechada ou aberta
Senão a natureza de cada coisa verdadeira ou falsa
E o tempo impiedoso desprendendo meus problemas

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EU ABUSO DE CERTAS CORES


Eu abuso de certas cores

Do vermelho por exemplo

Sangro-lhe pelas veias

Eu não acho feio que o mundo de ocre me tinja

Mas odeio um mínimo corte no dedo


Assim pensam os parvos sobre as necessidades:

Desde que não me atinja o medo

Pouco importa se a peleja quebrou-se a vidraça

Pois me vejo na farsa do espelho


Oh ruas sem saídas destas nossas soturnas cidades

Vigiai para que não perambulem por elas

Nenhum coitado sem graça sem remédio sem paga

Depois o conforto se areja


Mais logo quem sabe esteja

Nos braços do descanso quem deseja

Ouvir a lucidez do silêncio


Enquanto prosperar qualquer forma de inveja

O amor nos console o choro pelo encanto


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A FÁBULA DOS NOVOS TEMPOS

PRIMEIRO DE MAIO DE DOIS MIL E VINTE E UM, e escuto gente dizendo que estamos definitivamente mergulhados na era digital e no tão propalado home office.

Que a pandemia em definitivo ensinou a todos, principalmente brasileiros, essa nova modalidade laboral. Trabalha-se à distância.

Sim, ninguém mais precisa sair de casa, cumprir horários, enfrentar trânsito, submeter-se a longos percursos utilizando os próprios veículos ou o transporte público. Que ampliou e permitiu um maior e melhor convívio familiar, pois pais e mães não se deslocam mais para as suas empresas, e por conseguinte, filhos estudam online; e isso permite interação ampla e irrestrita, reaprendendo a todos o quão saudável, necessário e gostoso é o convívio diário entre cônjuge e a prole.

É, a impressão que tenho é a de que quem assim pensa e age ou está gozando de um privilégio sobrenatural ou não está enxergando um palmo da realidade diante do nariz, e se está, tá tirando onda com a cara do povo.

Se a massa diuturnamente não sair pra rua para cumprir no mínimo 44 horas de jornada de trabalho semanal, perdão, mas quem irá lavar suas roupas, fazer seu almoço, colocar o bico da bomba de gasolina na boca do tanque do seu carro, entregar seu delivery, tirar o leite da sua vaca, obturar os dentes de seus filhos, trocar a lâmpada queimada do poste, recolher os enormes sacos com o lixo que você produz e larga ali fora do portão do seu quintal?

Estamos vivendo uma fome quase que sem precedentes. Uma desigualdade social inimaginável, um desgoverno epidemiológico sem fim.

Esse Primeiro de Maio tem muito mais que 24 horas. Tem a duração da falta de trabalho, a extensão das dores da alma, o comprimento do buraco na barriga e a insignificância de mais um boleto vencido sem condições de ser pago.

Haverá home office enquanto houver quem sustente com as próprias mãos e salgado suor, o tráfego que mantém plugados os gigabytes de sua internet.

Se não é trabalho será falso, senão ócio.


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GOSTO DE VIVER


Quanto gosto a gente faz do viver
Notícias: o homem perde o paladar
Não se sente mais cheiro algum
Cegos seguem por corredores sem fim


Eu caminho surdo a tais pressões

Pois gosto da vida e seus sabores
Dos odores dos segundos e das cores
Ainda que haja muros e escuro esteja


Procuro nos espaços que possuo

Sentir o coração intenso amar
Tudo o que essa visão me entrega


Assim encontro precioso sentido

Em todo gesto em cada regra
E o mundo a mim jamais se nega

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PERTO DE TI


Procura

Pois perto de ti
Sempre poderá haver um encontro
À tua espera


Todos os dias partimos
Eternos buscadores sem asas
Ainda que em desencantos
A vida é essa valsa sobre as ondas
Esse balanço submerso
Essa mistura de ritmos


Encontre
Pois perto de ti
Sempre poderá haver uma espera
À tua procura

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DIACHO DE FOME

Diacho de fome que arde no bucho
Que rebaixa o bicho
Que o torna insano como qualquer homem
Um pária sem pátria sem rumo e sem nome
E vice-versa

É fome de verso diversa sujeita
O peito lhe aperta por estar na sarjeta
Sem voz e sem teto sem afeto e sem graça
Não importasse praça quintal ou casa
Nem absurda conversa

O mundo separa-nos entre o farto e a falta
E a alma se despe do corpo se mata


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BARBAS DE MOLHO

Certas coisas nos cegam tão de repente que quando abrimos os olhos ficamos pensando: como não as vi! Sim, tem situações inusitadas ou repetitivas que sempre nos pegam de surpresa. Quando alcei um ano após minha primeira metade de século de vida, prometi a mim mesmo que a partir dali não assustaria com mais nada. Venho tentando fazer isso já há dez anos, mas por mais autocontrole que se tenha, há por vezes (e muitas vezes, por sinal), algum espanto na curva. Prova de que estamos sendo submetidos constantemente a novos aprendizados. O desconhecido deve ter para todos, o significado de novos conhecimentos adquiridos. O inusitado precisa, portanto andar de mãos dadas com a nova realidade, sendo que essa nova realidade necessita de constante esforço para tornar-se parte do cotidiano.

Filosofices a parte, acontece que me considerava tranquilo, tomando os cuidados básicos de fuga da covid-19, com a finalidade de me preservar para preservar os que com os quais convivo e me cercam dia a dia. E assim driblando a rotina, um dia após meu aniversário levei satisfeito e cantante, meu braço nu de encontro a ponta de uma agulha que me faria a gentil fineza de introduzir em meu organismo a primeira dose da Oxford.

Agora estou aqui leso, dolorido, enjoado, e o pior de tudo, fingindo vender saúde para não preocupar quem me cerca.

Mas os sintomas são leves ante ao que vejo noticiar sobre as mazelas que essa pandemia provoca a cada fração de segundo por todo o mundo. Então, não é motivo de queixas ou reclames o que venho agora fazendo, mas sim, um nítido exame de consciência.

Primeiro, não sei no que isso vai dar e como irá acabar. Se isento e imune dos malefícios do sars-cov-2 ou pego pelo rabo (braço) e ao invés de inoculado, agente e distribuidor desse desgraçado vírus. Não sei se me isolo ou continuo a fingir até que esses sintomas sumam ou me debilitem por vez. Que estranha sensação de impotência total. E nem foi na curva do caminho, foi na retilínea estrada com total visibilidade e previsibilidade de sucesso.

Antes que os olhos apaguem por vez, pois nem estou conseguindo mirar mais a branca tela do computador, registro esse susto que nem sei onde irá ser publicado, para que não desperte qualquer preocupação em quem me ler.

Aguardo agora a segunda dose, que daqui há três meses virá. Depois disso tudo, espero poder sorrir do tropeço e dar risadas contigo comentando estas linhas. Porém, se der zica, não chore por mim!

Fui.


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MINHA VIDA

Semana passada resolvi fazer o registro de um novo e-mail, pois o que uso por bom tempo, ao longo dos dias foi sendo invadido por um turbilhão de mensagens de conteúdos estranhos, cuja caixa de spam já nem consegue mais absorver ou distinguir quem é quem nessa jogada multilíngue da virtualidade moderna. Culpa minha, certamente, que andei descuidado ao deixar portas abertas para os sites espiões fartarem-se com seus famigerados motores. Acontece que acabamos vinculando ao endereço eletrônico principal, celular, computador, e as contas das redes sociais. Assim, qualquer curiosidade que nosso permanente consumismo resolve pesquisar na internet, segundos depois dezenas de ofertas sobre determinados produtos ou serviços são despejadas na caixa de entrada e permanecem ali ramificadas e debulhadas em tantas outras mais similares.

Mas enfim, já estou usando um novo e-mail, e esse ainda limpinho e desvinculado dos principais avaros portais. E não se preocupem, pois o antigo faz automaticamente um redirecionamento das mensagens autenticadas, o que não me fará perder o contato de ninguém que me tem escrito, e deverá me manter a salvo, por enquanto, dessa disputada guerra invasora.

O que me chamou a atenção, no entanto, e quero fazer notar aqui pra vocês, foi justamente o momento de fazer o cadastro com os dados pessoais para obter a nova inscrição de e-mail. No campo Nascimento, coloquei obviamente onze, depois abril, sendo que no item Ano, marcava no automático, 2021. Então fui rapidamente retroagindo o calendário há algumas décadas para trás. Uma, duas, três décadas... quatro, cinco, seis: 11/04/1960! Achei legal isso.

Então ao invés de avançar para o próximo campo do formulário, resolvi brincar um pouco com os meus bem vividos anos. Desta vez fiz ao contrário: 70, 80, 90, 00, 10, 20...

E de novo: 21, 10, 00, 90, 80,70, 60 - onde tudo começou.

Não aguentei, fui para o Word, e dei o seguinte título ao documento:

MINHA VIDA

  • 1960 -
  • 1970 -
  • 1980 -
  • 1990 -
  • 2000 -
  • 2010 -
  • 2020 -
Então à frente de cada bloco de dez, comecei nos subitens, a identificar algo relevante em que a vida me marcou e tomou por especial minha atenção - escola, casamento, filhos, neta, irmãos, amigos, sucessos, empregos, conquistas, sufocos, perda de minha Mãe, mudanças, livros... E por aí afora, listando no meio desses sonhos, toda a realidade dos 61.


Certa vez li uma declaração que o diretor teatral Aderbal Freire-Filho fizera à Folha em 2008. Ele confidenciava que tinha o hábito de anotar coincidências numa agenda, na esperança de desvendar o mistério da vida.

Bem, posso concluir que não tive nem tenho essa ousada pretensão de Aderbal. Mas, após esse doce exercício que me custou bons momentos de recordação mnemônica, de uma certeza não abro mão em declarar e confessar a quem interessar possa:


- Eu existo. Meu Deus, como sou feliz!!!


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O HÁBITO DA ESCRITA

Eu me preparo para escrever algo novo, como quem arruma as malas para a próxima viagem. Às vezes uso um simples lápis meio sem ponta, por vezes alguma caneta falha, e na maioria delas o laptop, cujo sistema operacional normalmente trava. Sem contar que de repente, lápis, caneta e computador estejam funcionando e intactos, mas cadê papel para rabiscar a palavra ou tela para acompanhar diante dos olhos cada caractere digitado. Digo isso com o objetivo de confidenciar o sofrimento que é encontrar as ferramentas certas para fluir assunto e inspiração diariamente. Haja ansiedade!

Sempre tive esse mesmo problema ao saber que devia sair de casa para um passeio ou nova viagem qualquer. O que levar, para quantos dias, como estará o tempo, quem irá comigo ou encontrarei, e o que fazer.

Essa expectativa é quem sempre remexe as emoções. Porem depois que se ganha estrada e velocidade, o traslado se torna felicidade, e aí é aproveitar o deleite e toda a magia que a escrita impõe. Porque após quilômetros, parágrafos ou estrofes e frases, reler e dar-se à leitura é a mais prazerosa das conquistas. Veja você, então, como nascem os textos, por mais simples que venham a ser, mas na mais pura das vontades e intenções.

Quando ainda criança, o maior conforto que recebia antes da partida, eram os olhos de minha mãe vigiando as minhas tralhas. Seu olhar me acompanhava por todo o trajeto. Aquelas pupilas cabiam certas cuidadosamente dentro das minhas malas, e preenchiam todos os cantinhos. E até hoje tem o peso exato do que minhas forças suportam carregar.

Por isso sempre achei oportuno e necessário fazer de cada parágrafo uma necessidade particular. Assim, tanto estou pronto para um novo destino como para outra redação, desde que me permita voar.

Foi assim que conheci o mundo e passei a criar as minhas próprias historias. E é assim que arranco de mim as mais doces emoções que a arte propicia, sem sequer sair do lugar.

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QUADRO DE CHEGADAS

Dero-Dero desceu da velha bicicleta e atravessou o enorme corredor, depois subiu os trinta e três degraus até o ultimo patamar da íngreme escada, onde havia preso na parede lateral, um incrível painel aceso. Como fosse num moderno aeroporto, anunciava-se ali, porém em absoluto silêncio, o quadro de chegadas. Dado a pandemia, os nomes se sucediam muito rapidamente, exigindo literalmente um sobrenatural esforço do leitor para decifrar e entender a relação dos neófitos a serem iniciados naquela Ordem do Dia.

Ficou ali recostado por um longo tempo com os olhos pregados naquela fria tv. Apesar de serem letras garrafais, exigia muita concentração e paciência, mas era o único modo de confirmar - como se diz em bom português - 'quem vem lá!'.

Na verdade, quem viu primeiro o nome dele, foi Vavá, que casualmente por ali passava, que contou pra Mosquito, que informou aos demais. Mas como já subiu com certa fama de exagerado, ninguém lhe deu muita atenção. Acharam todos que estivesse zoando.

- Imagina se ele virá tão cedo, vocês estão de brincadeira - argumentou Estrela - Ele irá almoçar antes da partida.

Heraldo até se preocupou, mas no fundo também não deu muito crédito, achando que fosse léro de Etelvá.

Assim, como era tradição e sempre acontecia, disputaram na purrinha quem devia conferir finalmente a veracidade daquela informação.

Ah, não deu outra, sobrou para Aderaldo. E estava ele ali naquele momento, na incumbência de certificar-se de que realmente ele faria parte da leva dos Aprendizes daquele dia.

Havia almas de todos os lados, dos mais respeitados, distantes e incríveis Orientes. A relação de nomes não estava em ordem alfabética, mas sim era exibida por horário de chegada.

A lista fora montada por um consorcio de Lojas que recolhia os dados cadastrais dos espíritos, e fazia a divulgação, para que os demais obreiros tivessem noção de quem viria. Haviam sim recebido a confirmação da possível chegada, porém não era definida ali na mensagem, a hora e o dia. Alguns resistem mais, outros chegam até mesmo a antecipar - aí virava correria. O fato é que o fim da viagem pudesse acontecer naquela Sessão, antes do meio dia. E para isso alguém precisava ficar de olho no telão. E, diga-se de passagem: era exibida a hora exata da chegada. Uns, mais pecadores, sempre demoravam mais em trânsito, no curso da viagem. A dele, no entanto e como previsto, foi num zás.

- E não é que Vavá estava certo! - pensou Dero-Dero ao ver prevista e confirmada a chegada daquele irmão, cujo nome já aparecia na tela.

Saiu apressado, praticamente correndo pela longa escada. Atravessou de volta o imenso 'corredor de anúncio da morte'. Não, desculpe, 'corredor de chegada para a nova vida'. Da morte seria para os que ficamos ainda mais um tempo por cá.

Alcançou o incansável Zé Mosquito que jamais parava de caminhar pelas calçadas das nuvens, e ofegante, tornou a apear da surrada bike:

- Sim Zé, chega hoje mesmo, daqui a pouco, antes do almoço. Tomara que para o ágape tenha moqueca! - completou num largo sorriso...

E na hora exata de uma quinta-feira destas - coincidentemente, dia de reunião na FUPS - aqueles valorosos Mestres reunidos - Aderaldo, Heraldo, Estrela, Parracho, Pedro Faria, Etelvá, Oscarzinho, Zéquitoki, João da Sunga, Joselito Vieira, Manoel Carneiro, Zelito Lima e Bertinho - todos devidamente paramentados, recebiam mais um eterno aprendiz - Tonhão - na porta do Oriente Eterno, do lado interno do Céu, e o conduziram escoltado enfim, ao Altar dos Juramentos, sob as barbas de Arão, aos braços do SADU, para descansar de sua feliz e bem sucedida jornada na Terra.

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CANÇÃO DA GENEROSIDADE

Embriagai-vos de generosidade
Pois é chegada a hora de serdes abundantemente fraternos
Mas de uma fraternidade clara, translúcida
Imprópria para os inconvenientes


Lá no sertão da alma
Quando alvorece a complacência
Doar aflora todas as definições de humanidade
E nos tornamos luminosos e iluminados
Preciosos e mais livres até no olhar


Doai do que vos farta
Fartai-vos dessa singela alegria
Afinal ainda é manhã e a hora propicia


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CAMINHOS

Moro tão fora do mundo
Que a madrugada me traduz nos carinhos da arrebentação
E o pensamento me salga o sono de alga e areia


Depois quando nasce a luz na leveza do dia

Os sonhos fazem tanto alvoroço entorno das coisas
Que até os caminhos aquietam para ouvir a sinfonia


Quanta certeza teria eu para estar aqui

Pareço um enorme rio que repousa em seu leito
Afagando um afluente recém chegado a seu ninho


Mas sou inconstante como plumas ao vento

Mergulho e desassossego do sono profundo
E voo pelo mar afoito sem qualquer apego
Levando-te nas asas pelo gosto de andar sozinho



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ESPELHO


Tentaram mudar o mundo por estar velho
Vãs tentativas desconexas
Fizeram o planeta sentir a perversidade
De tanta gente errônea desenformar a terra


Agora de conversa em conversa

Tentam reestruturá-la porque a visão é outra
Mas o homem reflete essa desestrutura
E se enquadra e depara sem argumentos
Com a própria cara fora do espelho


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O CASCO DESSE NAVIO

Quisera
Que a mesma vela que nos levará para outra quimera
Navegasse sob a intensa luz de um só pavio
Esperando derreter a cera sob um sol de primavera
Imerso nas aguas de qualquer um lago
Por onde deslizasse o grosso casco desse navio


Seguíssemos talvez
Ainda que seguidas vezes diluídos em rios
Ao invés de consumirmos em cinzas nossos pedaços
Soldássemos as fendas desse calado
Equilibrando o corpo à sombra do círio
Revestíssemos de coragem abóboda e lastro
E simplesmente de novo partisse


E se lá na frente assoreasse
Ou se tombasse o mastro sobre delírios toscos
Enxergássemos ainda que febris desastres
Por vieses e enroscos
A fugaz serenidade face a face

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DEUS TRISTE

Deus triste contempla os desacertos de seu povo
Que ao mesmo tempo em que clama por piedade
Faz da liberdade um descalabro homicida


Ele persiste em contemplar os desacertos de seu povo
E chora aflito em cada alma que perde o corpo à morte
A cada alma que a morte leva sórdida a vida


Desta vez não teve ânimo para abandonar o túmulo
Não ressuscitou - preferiu estar dentre os abatidos
Quedou-se deprimido ante tanta aflição


Deus triste permanece deitado recolhido em seu nicho
Pasmo sem ação ante a feracidade dos ladrões e algozes
Que desmantelam os princípios básicos do viver


Deveria estar feliz por receber essa urbe em seu reino
Mas não faz sentido tanta gente ao mesmo tempo fenecer
Deus chora triste e solitário - por mim e por você

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RESTAURAÇÃO

O altíssimo soberano - aquele que nunca dormiu
Envelheceu desconhecendo o sono
Cochilando apenas recostado à necessidade
De manter-se peremptoriamente acordado
Partiu solidário para longa odisseia
Antes que o caos retomasse o infinito

Assim reimplantou moradas entre quintais
Presas às balaustradas e cercas dos caminhos
Junto aos pomares à beira dos frágeis riachos
Cujas águas inquietas e rasteiras
Voltaram seguir em busca dos sonhos
E das inconstâncias dos oceanos

Vigiou os conceitos das plataformas
Erguidas à procura do destino ideal
Mantendo-se atento aos mínimos gestos
Dos astros no macro espaço entre as esferas
Que circundam e orbitam os planetas
Diante das plateias angelicais

Resguardou o porvir de todos os povos
Recolhendo as possibilidades do desprazer
Eliminando as desventuras da realidade
Convencendo a natureza de que é preciso
Tão quanto necessário e premente
Zelar atento aos ditames dos céus

Soldou os hemisférios circundando os mares
Realinhou as geleiras nas montanhas verbais
Reposicionou novamente todas as espécies nos habitats
Intercalou com noites os claros do sol nascente
Retornando a espera pelo amanhã e depois
O sublime exercício nato da paciência diária

Aí sim ao final da estanque tarefa de restauração
Na manhã do bilionésimo milênio ou algo assim
Contemplando a morada completamente refeita
A missão cumprida e finda a jornada em seu jardim
Descansou por sete dias em sono profundo
Num belo domingo como humano e não deus

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LÁBIOS

A agua e o ar se movimentam

O sopro no vento

A onda no mar

Um voa meus sonhos

Outro afaga os ais

E todos se encontram

Num único porto

No limbo dos dentes

Nem longe nem perto

No abismo do olfato

Batendo nas bordas

Onde os lábios margeiam

E a úmida língua

Bailando na boca sentindo sabores

Sacia a alma

Alimenta o corpo

Respira em poesia

Inspira depois

Acaricia

Repousa

E a alma desposa-me


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RESSURREIÇÃO

Para onde irá tua alma?
A minha permanecerá


Não irei a lugares
Nem subirei patamares
Estarei retilíneo sepulto com meu corpo
Onde dele dependo para viver a mostra do que penso
Dormirei por séculos entre os pecados cometidos
E os deslizes perdoados pela mera bondade do acaso


Assim sobreviverei atemporal ainda que a carne debulhe

Mesmo que esfarinhem os ossos
Sobreviverei porque o íntimo permanecerá
Desde que tua generosidade
Comigo se apense e a piedade partilhe
Onde os nomes descansam dado o privilégio de amar


Mas ao raiar do décimo milênio despertarei
E ai quem sabe poderei por fim descansar


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SOBRE AS CAMAS

A vara que ergue a corda
Estica o varal até a altura do sol
Para que o lençol seque e quare
Um pouco mais alvo debaixo do céu
Permanecendo hasteado no alto do pau
Livra os arrastos da límpida barra no chão

E preserva o mundo exposto de cada um


A moça contempla o acinte do vento que acorda

Esvoaça o tecido e embandeira o quintal
Então penso que todos os dias lavam-se roupas
Onde se apagam os rastos deixados de suor e amores
Apenas para estender as cores e enfeitar o portal
Por onde transitam prazeres e dores
Vestígios dos nossos sonhos e dramas


O mundo é esse circo irreal

Enquanto descortina o próximo segundo
Achamos que o envelhecer amarrota as camas
Mas na verdade revive as fibras e o ideal
E renovam-se os panos enviesados
Enternecidos por vivas chamas


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INDIGENTE

O santo torrão onde pisa meu pé pode não ser meu
Pois nenhum palmo desse abençoado solo sequer me pertence
Não se lavrou em meu nome nenhuma escritura pública
Em que me ateste a posse de qualquer morada ou cerca
Não grilei gleba alguma no radar da noite nem a herdei
E nem de ti o mundo tomei para que desolasses sem chão


Plantei sim árvores inúmeras nas beiras das plagas

Semeei o verde ainda que tuas mãos devastassem as eiras
Ajudei-te a recolher os grãos e preservei tuas sombras
Transmutando as poças em riachos viçosos diversos
Que seguem o curso no entorno da orla de versos
Juntando as fronteiras longínquas desta nação


Sou eu agente dessa massa que se orgulha e se ampara

Se te envergonhas não seja de mim ou da raça
E sim da oculta imagem que te reflete o espelho
Pois a terra que é tua é o lugar que me abraça
Ainda que seja eu indigente e não comungue dessa hóstia
Prossigo forte país feliz altaneiro - sou eu povo tua pátria


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ETAPAS

Considero paixão cada etapa vencida

Mas para que possa vencê-las

É preciso lutar essa luta aguerrida

E dela entender os ditames do tempo

Cada oportunidade e a rotina da vida


Lá de cima da montanha

De onde possam vir teus medos

Ouço chamados contínuos e apelos

Para que eu chegue ao cimo

E contemple a paisagem


Certamente seja esse o segredo do vento

Varrer-se na pedra sem perder-se da nuvem

Inda que não as tenha entre os dedos


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IMAGINA

Imagina enfim
Se a luz é ou não companheira das sombras
Pois tantas vezes seria a noite quem iluminaria o dia


Desapercebido porém

Passando de soslaio pela penumbra me iludiria
Não fosse a certeza de que esses raios são apenas sobras
No extenso veludo negro da penumbra
Onde o sol morreria


Apenas pelo gosto de ressuscitar no brilho de cada estrela

Amanhã a tarde intensa poderá predizer-se ainda mais bela
Desde que eu a olhe pelos olhos da poesia